quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sufoco!


Sente-se um ar carregado, uma espécie de estresse coletivo. Algo não muito bem definido sufoca a gente, criando mal-estar e desencontro. Pensei que isto fosse específico do nosso Rio de Janeiro, onde o tal “choque de ordem” do prefeito Paes por enquanto é sentido como uma grande desordem na coisa mais básica de uma grande cidade, a mobilidade. É uma verdadeira dor de cabeça ir ao trabalho e voltar para casa. Andar na Avenida Rio Branco durante o dia virou aventura diária: há ônibus nos dois sentidos da avenida, mas nem para todos os lugares da cidade. Tenho colegas no Ibase que passaram a se deslocar quilômetros para chegar ao trabalho, ou a tomar a sua condução de volta sem saber o que vão encontrar e nem quando chegarão ao destino. Afinal, as vias principais ficaram restritas e sempre engarrafadas na hora de pico. Trens, então, são um desastre. É notícia todo dia o descalabro do sistema da Supervia, onde viajar já é um ponto além do sufoco. No metrô, na linha mais importante e única para a Zona Norte, as pessoas viajam espremidas. E o governador Cabral ainda achou prioritário gastar uma fortuna para estender a linha de Ipanema à Barra, ao invés de investir tal dinheiro para transformar a Supervia em metrô de superfície, servindo milhões de pessoas. Enfim, no detalhe dos transportes, o Rio de Janeiro sufoca a cidadania de maneira a se temer asfixia completa. Aliás, foi isto que aconteceu na última quinta-feira, com a greve dos rodoviários. A mobilidade no Rio, porém, está longe de ser a única causa do sufoco.

Mas nem é só no Rio que as pessoas sentem que de repente as coisas estão fora do lugar e a vida ficou um tanto mais penosa. A mobilidade é uma questão nacional, especialmente nas grandes cidades e suas periferias. A segurança pública volta a perturbar em todos os sentidos. As Polícias Militares, concebidas para reprimir, e não para garantir cidadania, são parte do problema, aliás são uma herança da ditadura, parte do Estado onde a nossa democracia ainda não chegou. Pior que nossas polícias é a crescente intolerância no seio da própria sociedade, com aumento criminoso e inaceitável de atos de justiça pelas próprias mãos. Dá medo. E medo é uma espécie de câncer para a sociabilidade e a convivialidade, tão fundamentais para a cidadania e a democracia. Agora, com a Copa, até as Forças Armadas entram para garantir segurança, e no lugar de segurança trazem um sufoco a mais. A “ocupação” das cidades-sede dos jogos visa dar tranquilidade aos turistas e ao negócio da FIFA, e não exatamente dar segurança à cidadania de todas e todos, tanto que voltarão aos quartéis com o fim dos jogos.

As mazelas do cotidiano são muitas, e seria enfadonho ficar aqui lembrando todas. Há porém algo mais sistêmico, estrutural, que está por trás de tudo e alimenta o sufoco. Aparece como distanciamento, como algo de outro mundo. É o sistema político, especialmente nossa representação no Congresso, nas Assembleias, nas Câmaras Municipais, nos Partidos, com sua capacidade de nada ver e perceber. Há, sim, o crescimento de um perigoso descrédito na política e nos políticos em geral. Interesses particulares, disputas de nacos do poder para ter acesso a privilégios, subordinação do interesse público e cidadão a negociatas escusas, desvios de recursos, enfim, a política cheira a coisa suja, que não dá para acreditar e nem suportar. Na prática, o nosso sistema político não é a nobre atividade de disputa dos sentidos e dos projetos de sociedade que precisamos, dos caminhos para tanto, das políticas necessárias e das melhores normas e leis que garantam direitos e cidadania de forma universal. A pequenez que a política real exala, além de sufocante, pode nos levar a matar a própria democracia.

O nosso sufocante cotidiano não parece ser do mesmo mundo dos políticos. Eles estão lá e nós cá, com um fosso em crescimento no meio. A vibrante mobilização pela democracia de trinta anos atrás, os grandes movimentos e as grandes disputas, a nova Constituição, as eleições diretas de presidentes, novas políticas, tudo vem perdendo vigor e parece passado distante. Entramos numa democracia de baixa intensidade, com políticos insensíveis aos clamores da cidadania nas ruas, praças e comunidades deste nosso querido país. Até quando vamos suportar isto?

Estamos em ano eleitoral. Não vejo sinais de que algo vai acontecer até as eleições, despertando a vontade de participar e decidir a parada, além, é claro, de nos tirar das costas o sufoco. Nem sinais de que projetos estão emergindo para mobilizar o imaginário e dar conta do sentimento profundo de frustrações que sufocam. Os partidos, os políticos e a própria política estão longe demais. Não é bom para a cidadania e a democracia tal estado de coisas. A proposta de reforma política é algo fora do mundo oficial. Todos estão mais preocupados em como financiar as campanhas, pois a política que está aí virou disputa de recursos das grandes empresas, especialmente as empreiteiras. Estas, e não a cidadania, são as grandes votantes, por mais lamentável que isto pode ser para a democracia. As propostas de reforma pipocam entre alguns setores da sociedade civil, mas não se tem revelado capazes de mostrar que a política institucional nos afasta do caminho da cidadania e da democracia, motivando e angariando o apoio necessário para a mudança, tão necessária no entanto.

Bem, antes da eleição temos a Copa do Mundo. Mais um sufoco? Ou possibilidade de levantar a nossa autoestima? O certo é que não é a Copa e seu resultado que vão dar a ponte para reaproximar a política do cotidiano da cidadania. Precisamos voltar a construir trincheiras cidadãs para reinventar a democracia. Como fazer isto extraindo, como nos lembra Gramsci, o bom senso do senso difuso de insatisfações reinante nos poros da sociedade e o transformando numa nova grande onda de democratização? Este me parece o grande desafio para a democracia no Brasil neste momento. Saberemos enfrentá-lo?

Cândido Grzybowski é sociólogo e diretor do Ibase.
Fonte: Canal Ibase.




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