quarta-feira, 21 de maio de 2014

ONU deplora uso da água como arma de guerra


A Organização das Nações Unidas (ONU), que tenta resolver a escassez hídrica no mundo em desenvolvimento, enfrenta um novo problema: a privação de água como arma de guerra em zonas de conflito. Os últimos casos estão na África e no Oriente Médio: Botswana, Egito, Iraque e Israel, que corta o serviço para os territórios palestinos que ocupa.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou sua preocupação na semana passada, após denúncias de que grupos armados cortaram o fornecimento de água à assediada cidade síria de Alepo e deixaram 2,5 milhões de pessoas sem água potável nem saneamento durante oito dias. “Deixar as pessoas sem água potável é violação de um direito humano fundamental”, lertou Ban. “Pôr a população civil como alvo e negar-lhe fornecimentos essenciais é uma clara violação dos direitos humanos e do direito humanitário internacional”, acrescentou.

Nos três anos que dura a guerra civil na Síria, todas as partes em conflito, inclusive o governo do presidente Bashar al Assad e o leque de grupos rebeldes que tentam derrubá-lo, dificultam o acesso à água como arma de guerra. O conflito sírio já deixou 150 mil mortos e quase nove milhões de refugiados.

As violações do direito humanitário internacional incluem torturas e privação de alimentos e água.
Maude Barlow, representante do Conselho de Canadenses e da organização Food and Water Watch, disse à IPS que cada vez se usa mais os cortes deliberados de água como estratégia bélica. Durante o confronto entre Irã e Iraque, na década de 1980, as Marismas da Mesopotâmia foram drenadas. O então presidente iraquiano, Saddam Hussein (1937-2006) continuou secando-as durante as represálias dos anos 1990 contra os xiitas que se escondiam nessa região e contra os árabes das marismas que os protegiam, acrescentou.
No Egito, a privação da água e seu desvio para a população rica foi um dos principais fatores da Primavera Árabe, ressaltou Barlow, assessora para temas de água do presidente da Assembleia Geral da ONU entre 2008 e 2009. Milhares de pessoas ficaram sem água potável e os “protestos pela sede” foram um dos catalisadores do levante.

Mais de quatro décadas de ocupação israelense nos territórios palestinos tornam impossível construir ou manter a rede de água potável em Gaza, o que, por sua vez, contamina as fontes de água potável e causa a morte de muitas pessoas, destacou a especialista. Barlow também citou o caso de Botswana, que usou a água como arma de guerra contra os bosquímanos para obrigá-los a abandonar o deserto do Kalahari, onde foram encontrados diamantes. Em 2002, o governo proibiu os bosquímanos de terem acesso à sua única fonte de água, uma ação terrível que foi anulada anos depois por um tribunal de apelações, detalhou.

Anand Grover e Catarina de Albuquerque, dois especialistas em água e saneamento da ONU, disseram na semana passada que a falta de fornecimento hídrico, mesmo em contextos bélicos, é totalmente inaceitável. A cidade síria de Alepo teve um serviço intermitente desde maio de 2014, e um corte total no dia 10 deste mês que deixou muitas pessoas, possivelmente um milhão, sem água nem saneamento, afirmaram os dois especialistas. O problema afetou famílias, mas também hospitais e centros de saúde, ressaltaram.

Os cortes obedecem a uma interferência deliberada, mas as acusações mútuas dos grupos rebeldes armados e do governo sírio dão a entender que as duas partes tiveram responsabilidade em graus diferentes em momentos distintos. Barlow afirmou que a participação do governo de Assad nos cortes do serviço é coerente com seus antecedentes de usar a água para castigar seus inimigos e favorecer os amigos.
Em 2000, o regime sírio desregulamentou a posse da terra e cedeu vastos territórios e água aos seus aliados, endinheirados, o que reduziu as reservas e deslocou quase um milhão de pequenos agricultores e pastores de suas terras, recordou Barlow. O irônico e trágico é que as pessoas se assentaram em Alepo, onde novamente sofrem escassez de água, acrescentou.

Barlow também se referiu ao problema quando se usa a água na “guerra de classes”. Na cidade norte-americana de Detroit, no Estado de Michigan, foi cortado o serviço de água de vários milhares de pessoas que não podiam pagar sua conta. E não faz muito tempo o mesmo ocorreu na Bulgária, Espanha e Grécia, devido às medidas de austeridade adotadas nesses países europeus. “O uso da água como arma de guerra é um argumento sólido para que os governos e a ONU tornem realidade o direito humano à água e ao saneamento, sem importar que haja outros conflitos”, insistiu.

Desde 1990, quase dois bilhões de pessoas tiveram acesso à infraestrutura de saneamento e 2,3 bilhões têm água potável graças a fontes melhoradas, segundo informe da ONU divulgado na semana passada. Este documento, elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que dessa população cerca de 1,6 bilhão de pessoas agora têm água encanada em suas casas.

Segundo o informe, mais da metade da população mundial vive em cidades, e as áreas urbanas continuam tendo um fornecimento melhor de água e saneamento do que as rurais. “Mas a brecha diminui”, afirma o documento. Em 1990, mais de 76% dos moradores das cidades tinham saneamento, mas eram somente 28% entre os das áreas rurais. Em 2012, a proporção passou para 80% contra 47%, respectivamente. “Apesar dos avanços, ainda há desigualdades geográficas, socioculturais e econômicas no acesso à água potável e ao saneamento no mundo”, alerta o informe da ONU. 

Fonte: Envolverde/IPS


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