segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quem cuida do cuidador?


Por Leonardo Boff
 
As primeiras e mais ancestrais cuidadoras são nossas mães e avós que desde o início da humanidade cuidaram de sua prole. Caso contrário, não estaríamos aqui escrevendo sobre o cuidado.

Neste contexto queremos mencionar duas figuras, verdadeiros arquétipos do cuidado: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965) e a enfermeira inglesa Forence Nightingale (1820-1910).

Albert Schweitzer era exímio exegeta bíblico e um dos maiores concertistas de Bach de seu tempo. Aos trinta anos já com fama em toda a Europa, largou tudo, estudou medicina para, no espírito das bem-aventuranças de Jesus, cuidar dos mais pobres dos pobres (os hansenianos) em Lambarene no Gabão. Numa de suas cartas confessa explicitamente: ”o que precisamos não é de missionários que queiram converter os africanos, mas de pessoas dispostas a fazer aos pobres o que deve ser feito, se é que o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuem algum valor. Minha vida não está nem na arte nem na ciência mas em ser um simples ser humano que no espírito de Jesus faz algo por insignificante que seja”. Foi dos primeiros a ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Por cerca de quarenta anos viveu e trabalhou num hospital por ele construído com o dinheiro de turnês de concertos de Bach. Nas poucas horas vagas, teve tempo para escrever vasta obra centrada na ética do cuidado e do respeito pela vida. Formulou assim seu lema: "a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo o que existe e vive”. 
Numa outra obra assevera:”a ideia chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao mais alto valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedir que se desenvolva plenamente; este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”. 

Outro arquétipo do cuidado foi a enfermeira inglesa Florence Nightingale. Humanista e profundamente religiosa, decidiu melhorar os padrões da enfermagem em seu país.

Em 1854, com outras 28 companheiras Florence se deslocou para campo de guerra na Crimeia da Turquia, onde se empregavam bombas de fragmentação que produziam muitos feridos. Aplicando no hospital militar, a prática do rigoroso cuidado, em seis meses reduziu de 42% para 2% o número de mortos. Esse sucesso granjeou-lhe notoriedade universal.

De volta ao seu país e depois nos EUA, criou uma rede hospitalar que aplicava o cuidado como eixo norteador da enfermagem e como sua ética natural. Florence Nightingale continua a ser uma referência inspiradora.

O operador da saúde é por essência um curador. Cuida dos outros como missão e como opção de vida. Mas quem cuida do cuidador, título de um belo livro do médico Dr. Eugênio Paes Campos (Vozes 2005)?

Partimos do fato de que o ser humano é, por sua natureza e essência, um ser de cuidado. Sente a predisposição de cuidar e a necessidade de ser ele também cuidado. Cuidar e ser cuidado são existenciais (estruturas permanentes) e indissociáveis.

É notório que o cuidar é muito exigente e pode levar o cuidador ao estresse. Especialmente se o cuidado constitui, como deve ser, não um ato esporádico; mas, uma atitude permanente e consciente. Somos limitados, sujeitos ao cansaço e à vivência de pequenos fracasos e decepções. Sentimo-nos sós. Precisamos ser cuidados, caso contrário, nossa vontade de cuidar se enfraquece. Que fazer então?

Logicamente, cada pessoa precisa enfrentar com sentido de resiliência (saber dar a volta por cima) esta situação dolorosa. Mas esse esforço não substitui o desejo de ser cuidado. É então que a comunidade do cuidado, os demais operadores de saúde, médicos e o corpo de enfermagem devem entrar em ação.

O enfermeiro ou a enfermeira, o médico e a médica sentem necessidade de serem também cuidados. Precisam se sentir acolhidos e revitalizados, exatamente, como as mães fazem com seus filhos e filhas. Outras vezes sentem necessidade do cuidado como suporte, sustentação e proteção, coisa que o pai proporciona a seus filhos e filhas.
Cria-se então o que o pediatra R. Winnicott chamava de "holding”, quer dizer, aquele conjunto de cuidados e fatores de animação que reforçam o estímulo para continuarem no cuidado para com pacientes.

Quando este espírito de cuidado reina, surgem relações horizontais de confiança e de mútua cooperação, se superam os constrangimentos, nascidos da necessidade de ser cuidado.

Feliz é o hospital e mais felizes são ainda aqueles pacientes que podem contar com um grupo de cuidadores. Já não haverá "prescrevedores” de receitas e aplicadores de fórmulas; mas, "cuidadores” de vidas enfermas que buscam saúde. A boa energia que se irradia do cuidado corrobora na cura.

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Pelo fim do trabalho escravo em todo o mundo


O Brasil é considerado um exemplo mundial de combate ao trabalho análogo à escravidão. Por que não fazer pressão para exterminá-lo em nível mundial?

Na semana passada, comentamos o lançamento da agenda de compromissos e dos princípios e critérios para a sustentabilidade do carvão vegetal de uso siderúrgico no país. O objetivo é conseguir que até 2020 todo o carvão vegetal produzido no país venha de floresta plantada ou manejada e livre de trabalho forçado.
Hoje o Brasil é considerado um exemplo mundial de combate a essa chaga, tanto pela atuação das empresas quanto dos governos. A própria sociedade brasileira está cada vez mais consciente e mobilizada contra essa prática.

No âmbito das empresas, além dos compromissos voluntários, surge agora uma ferramenta que pode contribuir para prevenir o risco de envolvimento com trabalho forçado. Trata-se do primeiro Atlas do Trabalho Escravo no Brasil, lançado pela ONG Amigos da Terra Amazônia Brasileira.

Com toda essa experiência acumulada, por que o Brasil não faz pressão para um combate ao trabalho escravo em nível mundial?

O que é o Atlas

Realizado pelos geógrafos da USP Hervé Théry, Neli Aparecida de Mello, Júlio Hato e Eduardo Paulon Girardi, com apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Atlas do Trabalho Escravo no Brasil foi desenvolvido com uma metodologia inédita que caracteriza a distribuição, os fluxos, as modalidades e os usos do trabalho escravo no país, nas escalas municipal, estadual e regional, utilizando fontes oficiais e consolidadas.

A publicação também traz dois índices: o Índice de Probabilidade do Trabalho Escravo e o Índice de Vulnerabilidade ao Aliciamento. O primeiro traz levantamentos em nível municipal. Por isso, pode constituir-se numa ferramenta de planejamento bastante útil para financiadores, gestores públicos e administradores do setor privado, dando mais precisão às análises de risco e às decisões. O Índice de Vulnerabilidade ao Aliciamento aponta as regiões de origem do trabalho escravo, sendo, portanto, importante para gestores de políticas públicas e ações sociais.

A metodologia aplicada para elaborar o Atlas também permitiu construir o perfil típico do escravo brasileiro do Século 21: ele é migrante do Maranhão, do norte do Tocantins ou do Piauí, do sexo masculino, analfabeto funcional e foi levado para as fronteiras móveis da Amazônia, em municípios de criação recente, onde é utilizado principalmente em atividades vinculadas ao desmatamento.

Esse Atlas é útil também para a sociedade civil manter-se informada e atenta. Afinal, casos recentes mostram que o trabalho forçado não ocorre apenas em afastadas regiões rurais brasileiras, mas também nas grandes cidades.

Esse avanço no combate, todavia, precisa ganhar escala internacional, porque o trabalho análogo à escravidão ocorre em todo o mundo e pode “voltar” ao país agregado às importações.


E o resto do mundo?

No lançamento da agenda de compromissos, um diretor de empresa que tomou a palavra ressaltou exatamente esse aspecto do problema. Ele voltava de uma recente viagem à China, onde visitou diversas empresas de autopeças e constatou tanto trabalho forçado quanto trabalho indecente. Por isso, ele sugeriu que as empresas e o governo brasileiros fizessem um esforço internacional maior pelo combate diuturno ao trabalho forçado.

Se esse esforço não for feito, o país continuará tendo trabalho escravo via importações. Corremos o risco de ter o carvão siderúrgico sustentável, mas, continuarmos insustentáveis porque a autopeça importada (e produzida com ferro-gusa e aço brasileiros) é contaminada pelas condições indecentes de trabalho e pela degradação ambiental.

Vem aí um fórum em que esse problema deve ser discutido em profundidade: a Rio+20. Uma das propostas das empresas brasileiras ao “rascunho zero” dessa conferência é que as companhias que operam em vários países adotem um mesmo padrão internacional de operação, de respeito às convenções da ONU sobre direitos humanos, trabalho e meio ambiente, e adote esses padrões independentemente da legislação de cada país. Com isso, o combate ao trabalho forçado entra na estratégia internacional da corporação, sendo, dessa forma, mais eficiente.

Outra medida que pode ser discutida e aprovada na Rio+20 é a constituição de uma governança internacional coordenada que promova compromissos voluntários entre as empresas, monitore e contribua para que os governos combatam essa prática e ajude a diminuir o problema num período estabelecido de acordo com as partes.

Hoje, o trabalho forçado se espalha por todos os continentes. Segundo informações da OIT, a Ásia e o Pacífico ocupam o primeiro lugar no ranking da distribuição regional do trabalho forçado. São 9,49 milhões de pessoas submetidas a essa condição.

Em segundo lugar, aparecem a América Latina e o Caribe, com 1,32 milhões de vítimas. O terceiro lugar é ocupado pela África subsaariana, com 660 mil trabalhadores forçados. Já os países industrializados aparecem na quarta colocação, com cerca de 360 mil trabalhadores escravos. O Oriente Médio e o Norte da África aparecem na quinta posição, com 260 mil vítimas.

O problema é mundial e exige governança mundial. E, sem condições dignas de trabalho para todos, não há equilíbrio ambiental, como sempre ressalta Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

X-tudo ambiental


Passadas duas décadas desde que se realizou a Rio-92, a Organização das Nações Unidas (ONU) resolveu organizar no Brasil uma nova conferência mundial. Concebida para avaliar o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 ameaça ser um fracasso. Sua complexa agenda virou uma torre de Babel.

A primeira conferência mundial sobre meio ambiente foi realizada em 1972 na capital sueca, a cidade de Estocolmo. Lá nasceu o importante Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Começavam a ser conhecidos, cientificamente, os limites da Terra para a explosão populacional humana. Consequências ecológicas do crescimento econômico.

Importante relatório da ONU divulgado 15 anos depois, intitulado Nosso Futuro Comum, definiu as bases do conceito que virou mantra na atualidade: o desenvolvimento sustentável. Derivada da noção pioneira de “ecodesenvolvimento”, proposta pelo economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs, a expressão propunha conciliar a economia com a ecologia. Mais tarde, na Cúpula da Terra (nome original da Rio-92), ampliou-se a compreensão sobre o tema, consagrando o famoso tripé da sustentabilidade: ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável.

Ao se incorporar à temática do desenvolvimento econômico, a causa do ambientalismo, antes restrita aos idealistas e aos visionários, ganhou importância. A sociedade global mudava a compreensão sobre o seu devenir. O crescimento predatório, que emite notas promissórias contra o futuro, perdeu cartaz, abrindo espaço para o surgimento da “economia verde”, novo paradigma da civilização.

Em tese, tudo resolvido; na prática, imensas dificuldades. As nações jamais consolidaram passos subsequentes, necessários para obter governança global sobre o meio ambiente. As empresas, por seu lado, perderam tempo tratando a sustentabilidade apenas como uma jogada de marketing, pouco modificando os processos tecnológicos de produção. Entre as pessoas, a conscientização ecológica jamais ultrapassou as elites da sociedade. Em consequência, anda atrasado o enfrentamento consistente da crise ambiental.

Falta também clareza sobre a ideia central. Desde que se formulou o conceito de desenvolvimento sustentável, suas três dimensões – ambiental, social e econômica – disputam espaço político em sua agenda. Se, num primeiro momento, a luta ambiental se robusteceu ao ser incorporada aos processos decisórios da economia, aos poucos o ambientalismo passou a dividir o seu ativismo com grupos centrados nas desigualdades sociais. Uma sociedade miserável, afinal, não pode ser considerada sustentável.

Especialmente nos países emergentes, como o Brasil, os dilemas elementares do crescimento – emprego, moradia, energia, transportes – exigem obras que pressionam fortemente as variáveis ambientais. Nesse sentido, o preservacionismo radical, coerente nos países ricos, por aqui soa como elitista. Por isso a ideia de sustentabilidade, mais ampla, ganhou espaço, forçando o ambientalismo a ser realista. Mais do que eloquentes palavras, ações concretas.

Em outra linha, certas organizações fizeram da sustentabilidade uma estratégia de combate à exclusão humana, fornecendo uma grife aos movimentos ligados à erradicação da miséria e à justiça social. Estes, agora, pegaram carona nos preparativos da Rio+20 e praticamente dominaram a mídia sobre a reunião. Negros, feministas, sem-terra, índios, gays, causas humanitárias variadas imiscuíram-se com o ambientalismo, resultando boa confusão, teórica e política.

Resultado: a Rio+20 perdeu seu foco original, ligado à crise ecológica da civilização. Assim argumentam os cientistas, militantes da causa ambiental, laureados com o prêmio Planeta Azul, uma espécie de Oscar da sustentabilidade. O físico José Goldemberg é um dos que lideram a grita contra essa deformação nos debates pré-Conferência, marcada para início de junho. Rubens Ricupero, diplomata cuja ação foi decisiva para o sucesso da Conferência de 20 anos atrás, esclarece: “Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico (…), virá o colapso total”.

Para piorar o quadro, entidades (que se julgam) esquerdistas passaram a contestar o tema da economia verde, proposto originalmente pela ONU, argumentando que esverdear os processos produtivos interessa apenas ao capitalismo. Para libertar os povos oprimidos, defendem, será necessária uma nova e ampla “revolução”, que, obviamente, ninguém sabe definir qual nem como. Nem onde.

E assim nos aproximamos da Rio+20. Nesse contexto, provavelmente nada de importante nela se decidirá. Uma avaliação séria, se viesse a ser realizada, mostraria que, a despeito de boas ações aqui e ali, a civilização continua caminhando para o colapso. Inexiste uma força coordenadora, decisória, que enquadre a sociedade global na agenda futurista. Essa governança, que poderia ser o grande assunto do encontro no Rio de Janeiro, será provavelmente substituída pelas resoluções de sempre, genéricas, que empurram o problema com a barriga.

A grande conferência da ONU deve configurar, infelizmente, apenas uma grande festa ideológica, cujo brilho até poderá ajudar no avanço da consciência ecológica mundial, mas não deixará marca registrada. Haverá uma mistureba semelhante ao recheio daqueles sanduíches do tipo x-tudo: uma fatia da diplomacia internacional, uma rodela de terceiro-mundismo clássico, pitadas da Via Campesina, pedacinhos de ambientalismo com molho oriundo dos povos oprimidos, um caroço do empresariado inteligente amolecido pelas entidades científicas, tempero blá-blá-blá à vontade.

Fica delicioso, enche a barriga, mas não guarda o gosto de nada.

Xico Graziano é ex-secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, é engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração.
Fonte: EcoD.

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Melhoras ao modelo vigente de sustentabilidade?


Por Leonardo Boff

Para ser sustentável o desenvolvimento há de ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. Já submetemos à crítica este modelo standard. Mas devemos ser justos. Houve analistas e pensadores que se deram conta das insuficiências deste tripé. Acrescentaram-lhes outras pilastras complementares. Vejamos algumas delas.

Gestão da mente sustentável: Para que exista um desenvolvimento sustentável importa previamente construir novo design mental, chamado por seu formulador, o Prof. Evandro Vieira Ouriques, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de gestão da mente sustentável. Tenta resgatar o valor da razão sensível pela qual o ser humano se sente parte da natureza, se impõe um autocontrole para superar a compulsão ao produtivismo e ao consumismo. Visa a um desenvolvimento integral, e não só econômico, o que envolve dimensões do humano. É um avanço inegável. Melhor seria se entendesse Terra-Humanidade-Desenvolvimento como um único e grande sistema interconectado, fundando um novo paradigma. 

Generosidade: Rogério Ruschel, editor da revista eletrônica Business do Bem, acrescentou uma outra pilastra: a categoria ética da generosidade. Esta se funda num dado antropológico básico: o ser humano não é apenas egoísta buscando seu bem particular, mas é muito mais um ser social que coloca os bens comuns acima dos particulares ou os interesses dos outros no mesmo nível de seus próprios. Generoso é aquele que comparte, que distribui conhecimentos e experiências sem esperar nada em troca. Uma sociedade é humana quando além da justiça necessária incorpora a generosidade e o espírito de cooperação de seus cidadãos.

Para Ruschel, a generosidade se opõe frontalmente ao lema básico do capital especultativo do greed is good, isto é, boa é a ganância. Ela não é boa; mas, perversa, porque quase afundou todo o sistema econômico mundial. Na generosidade há algo de verdadeiro porque especificamente humano. Na feliz metáfora do jornalista Marcondes, da ONG Envolverde, há que se distinguir a generosidade da simples filantropia, da responsabilidade social e da sustentabilidade. A primeira, dá o peixe ao faminto; a responsabilidade social, ensina a pescar; a sustentabilidade preserva o rio que permite pescar e com o peixe matar a fome. Entretanto, parece-nos, que somente ela é insuficiente. Demanda outras dimensões como a superação da desigualdade, a forma de consumo e a atenção à comunidade de vida que precisa também ser alimentada e preservada.

A Cultura: Em 2001 o australiano John Hawkes lançou "o quarto pilar da sustentabilidade: a função essencial da cultura no planejamento público”. No Brasil foi mérito de Ana Carla Fonseca Reis, fundadora da empresa "Garimpo de Soluções” e autora do livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável de tê-la assumido, difundindo-a em muitos cursos e palestras. Este dado da cultura é fundamental, porque encerra princípios e valores ausentes no conceito standard de sustentabilidade Favorece o cultivo das dimensões tipicamente humanas como a coesão social, a arte, a religião, a criatividade e as ciências. Deixa para trás a obsessão pelo lucro e pelo crescimento material e abre espaço para uma forma de habitar a Terra que condiz melhor com a lógica da natureza. Ocorre que esta dimensão da cultura foi sequestrada pelos interesses comerciais. Só será realmente eficaz quando, libertada, fundar uma relação criativa com a natureza.

A neuroplasticidade do cérebro: Cientistas se dão conta de que a estrutura neural do cérebro é extremamente plástica. Através de comportamentos críticos ao sistema consumista, se podem gerar hábitos de moderação e respeitadores dos ciclos da natureza. O cérebro coevolui consonante a evolução exterior, dando-se ai uma relação de interdependência.

Por fim, o Cuidado essencial: eu mesmo desenvolvi a categoria "cuidado” como essencial para a sustentabilidade. Entendo o cuidado exposto em dois textos – Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra (1999) e O cuidado necessário (2012) como uma constante cosmológica e biológica. Detalhes podem ser lidos nos livros referidos.

Nesta fase de busca de formas mais adequadas para garantir a vitalidade da Terra e o futuro de nossa espécie, toda contribuição é bem vinda e sempre traz alguma luz.

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