terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

As veias solidárias da América Latina


Por Marcelo Barros

Nos últimos dias de janeiro, realizou-se em Havana, Cuba, a 2ª reunião de cúpula da CELAC, Comunidade de Estados da América Latina e Caribe. Sob a liderança do presidente Raul Castro, coordenador atual dessa organização, reuniram-se 33 chefes de Estado, além de embaixadores, chanceleres, ministros e estudiosos. Ali representavam quase 600 milhões de pessoas, habitantes da América Latina e Caribe. Ali tomaram consciência dos enormes problemas que afetam o mundo e especificamente a América Latina.

No informe apresentado no Fórum Econômico Mundial que começou em Davos na 4ª feira, 22 de janeiro, a OXFAM tinha advertido aos governos e empresários: a desigualdade social aumentou descaradamente nos últimos quatro anos. Atualmente, 85 pessoas no mundo possuem juntas a mesma riqueza de metade da humanidade. Isso quer dizer que a metade da riqueza mundial está nas mãos de menos de 1% da humanidade. A parcela da população mais rica possui mais dinheiro que a metade da humanidade toda. Nos Estados Unidos, desde 2009, o 1% mais rico acumulou 95% do crescimento total do país e isso depois da crise. O patrimônio dos dez europeus mais ricos é de 217 milhões de euros, quantia superior aos 200 milhões de euros, custo das medidas aplicadas pela União Europeia entre os anos 2008 e 2010 para salvar as economias em crise e ajudar países à beira do precipício. Isso significa que as ditas “medidas de austeridade”, impostas pelos governos da Europa a seus cidadãos, estão prejudicando os pobres e enriquecendo ainda mais os ricos. (Cf.  La Vanguardia, jornal de Barcelona, 21/ 01/ 2014, p. 22).

Na América Latina e Caribe, a situação é um pouco melhor. A pobreza extrema atinge atualmente a 8% da população latino-americana e chega a 18% no Caribe. O Haiti continua o país mais pobre do continente e um dos dois mais empobrecidos e explorados do mundo. Essa situação é escandalosa quando se sabe que o continente tem uma das maiores quantidades de terras cultiváveis e férteis do planeta. Além disso, embora não acreditemos na solução de explorar o subsolo e destruir a natureza para gerar riquezas, é bom saber que 65% das reservas de todo o lítio do mundo estão na Bolívia e Peru, assim como as maiores reservas de estanho. O Brasil guarda uma das mais ricas reservas de ferro, o Chile, de cobre. O México tem 42% das minas de prata do mundo e assim por diante. Mas, tudo isso está servindo para enriquecer empresas multinacionais e uma pequena elite que delas se beneficiam e não resultam de modo algum em uma melhoria de vida para a população do país, menos ainda para os trabalhadores explorados nessas minas. Ao contrário, o colonialismo e a organização social e econômica vigentes em muitos de nossos países aumentam a situação de pobreza extrema e de desigualdade social.

 Assim, os líderes da CELAC viram claro: ou mudamos o modo de organizar a economia de nossos países ou acentuamos as desigualdades e as injustiças. Segundo a ONU, os únicos países do continente nos quais a pobreza diminuiu e as desigualdades sociais foram reduzidas são os que seguem um caminho bolivariano: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. Os membros da CELAC se comprometeram em continuar a luta contra a pobreza injusta, se declararam fortemente favoráveis à libertação do povo de Porto Rico, até hoje, colônia dos Estados Unidos, sem direito a ter seu governo e sua independência social e política.

Pela primeira vez na história, temos um organismo verdadeiramente eficaz na integração do continente e na justa solidariedade entre nossos povos. Há décadas, Eduardo Galeano escreveu “As veias abertas da América Latina” para denunciar a situação de exploração e dependência que tínhamos em relação aos impérios do mundo. Atualmente, a CELAC se reúne não para fechar as veias abertas aos países amigos, mas para sanar a transfusão injusta de sangue e riqueza e para possibilitar que sejamos um organismo vivo e sadio a testemunhar paz e justiça no mundo.

Fonte: Brasil de fato


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