segunda-feira, 10 de junho de 2013

A África e nós

Marcelo Barros

Há poucos dias, um encontro internacional em Adis-Abebba, na Etiópia, celebrou os 50 anos da Organização da Unidade Africana (OUA). Essa iniciativa nasceu em 1963 na mesma Etiópia e com sonhos e ambições muito profundas: a libertação de todos os povos africanos, o respeito a integridade dos territórios de cada nação, a superação do racismo e o estabelecimento de políticas que promovessem a paz e o bem estar social. Para isso, um instrumento importante deveria ser a integração de todo o continente. 

Era o sonho de tornar toda a África uma espécie de pátria única, na mesma linha que, no inicio do século XIX, Simon Bolivar sonhou e lutou para realizá-la na America do Sul. Os fundadores da OUA queriam um governo único, uma única moeda e uma constituição que unisse a todos os povos africanos. Só conseguiram fazer uma Carta de princípios que serviu de constituição fundadora da OUA, mas sem peso de lei para cada Estado em particular.

Em 1963, os propósitos que fundaram a OUA eram muito audaciosos. Vários países africanos ainda eram colônias de países europeus. Na África do Sul, o apartheid racial era política oficial. Em todo o continente, o colonialismo tinha deixado marcas muito profundas. Muitos dos líderes africanos que promoveram a organização dessa entidade integradora do continente tinham sido comandantes dos processos de libertação dos seus povos. Alguns tinham sido presos, sofrido torturas e tentativas de assassinato. Foi o preço a pagar para superar o colonialismo europeu e conseguir a independência que várias nações só conseguiram a partir do projeto da Unidade Africana. Sem dúvida, a OUA foi um passo importante na formação de uma consciência pan-africana que, pouco a pouco, se espalhou por todo o continente. Infelizmente, com o tempo, tornou-se uma espécie de sindicato de governantes, sem participação real dos povos e de uma sociedade civil que nesse momento, na África, enriquece os fóruns sociais. Na América Latina, a Unasul e a ALBA reúnem, além dos governantes, movimentos sociais e representações da sociedade civil. Na África, isso tem sido impossível por pressões de potências estrangeiras que continuam a mandar no continente.

Atualmente, a África conta com 54 países independentes, membros da Organização da Unidade Africana. Vários desses países valorizam suas culturas ancestrais, falam seus idiomas próprios e procuram constituir uma sociedade intercultural e de paz. Nem sempre conseguem porque alguns países ricos de outros continentes continuam com interesses muito fortes na África. Enquanto a República Democrática do Congo tiver a riqueza que tem de diamantes, muitos congoleses viverão como escravos nas minas, vítimas de doenças respiratórias. Morrem a mingua para enriquecer firmas belgas e holandesas e produzir joias para mulheres ricas do Ocidente. O governo dos Estados Unidos continua explorando petróleo na costa do Congo. Polui a natureza e destrói os rios. Paga um salário de fome aos empregados congoleses e ao governo local 20% dos seus lucros. Esse tipo de política ainda vigora em todo o continente. Agora, veio se somar uma nova colonização feita pela China. Essa investe em projetos gigantescos como estradas, rodovias, portos e grandes hidroelétricas que, muitas vezes, servem ao turismo e aos interesses internacionais, mas beneficiam pouco as populações locais.

A presidente Dilma foi convidada para a comemoração dos 50 anos da Organização da Unidade Africana. Ali ela anunciou, por parte do Brasil, o perdão da dívida que países africanos tinham conosco. Setores da imprensa brasileira protestaram. Não perceberam que, ao perdoar a dívida africana, a presidente apenas reconheceu a imensa dívida social que o Brasil tem historicamente com os povos africanos. Fez um gesto de restituição simbólica do imenso capital humano, cultural e econômico que, no passado, nossos antepassados roubaram da África.

Há dez anos, o Brasil intensificou os passos de integração com os países irmãos da América Latina e Caribe. Atualmente, o sonho da pátria grande desejada por Bolívar começa a ser realidade. Faz parte do mesmo espírito a solidariedade aos países africanos que estão culturalmente e por história mais próximos de nós do que potencias do Norte. Antes, governantes elitistas sempre olhavam com mais interesse e predileção para essas potências.

Para as pessoas que creem, essa integração internacional dos povos empobrecidos e historicamente explorados é sinal antecipador da realização do projeto divino de uma humanidade nova e mais fraterna.
 
Fonte: Adital
 
 
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