por Leonardo Sakamoto*
No
coração do Amazonas, banhado pelo rio Solimões, Coari era igual a
qualquer outro município no meio da maior floresta tropical do planeta,
com uma pequena população. A realidade local começou a mudar quando
foram descobertos petróleo, de excelente qualidade, e uma imensa jazida
de gás natural cerca de três mil metros abaixo do solo. A partir daí, a
Petrobras implantou em suas terras a Província Petrolífera do Rio Urucu,
tornando possível a prospecção, o transporte e o escoamento do material
até o Solimões e, de lá, para a Refinaria de Manaus (Reman). Fui para
lá há alguns anos escrever sobre a cidade e, anos depois, atualizei os
dados com a ajuda do jornalista Maurício Reimberg.
A histórica é
igual a tantas outras em território nacional e serve para mostrar um
exemplo de como a discussão dos royalties da camada pré-sal, que anima
as discussões no Congresso Nacional e as ruas de Estados como o Rio de
Janeiro, ainda não estão alinhadas com a realidade dos brasileiros.
Dezenas
de milhões foram pagos em royalties – o município é um dos campeões
nacionais. Contudo, a compensação financeira pela exploração do subsolo
não foi sentida pela população mais vulnerável. “Não houve mudança
significativa com a vinda da Petrobras. Nas comunidades por onde passa o
gasoduto, as pessoas não sabem para quem vão os benefícios”, afirmou
Joércio Golçalves Pereira, então bispo da Prelazia de Coari. Ouvi
reclamações sobre a falta de saneamento básico, de água potável e o
acúmulo de lixo nas vias. Diante do quadro de precarização da saúde,
cresce o número de casos de doenças sexualmente transmissíveis, como a
Aids, além da violência. A exploração sexual de crianças e adolescentes é
mais uma das faces de um desafio à espera de solução em Coari. Uma
possível consequência disso é que a estatística das meninas grávidas com
idade até 15 anos mostrava uma elevada incidência da maternidade
precoce. Entre mulheres que tiveram filhos em Coari, no primeiro
semestre de 2008, 13,9% estavam nessa faixa. Em 1995, um ano antes da
chegada do petróleo à cidade, apenas 1,7% das grávidas tinha idade
abaixo de 15 anos.
Em maio de 2008, uma grande ação da Polícia
Federal sacudiu o cenário político de Coari. A Operação Vorax, alusão a
uma bactéria que se alimenta de petróleo, investigou uma quadrilha
acusada de participação num suposto esquema de desvio de verbas públicas
na prefeitura local. Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa
se apropriava de recursos repassados pelo governo federal e pela
Petrobras referentes à exploração de petróleo e gás no município.
Segundo a conclusão da fiscalização feita em 2007 pela
Controladoria-Geral da União (CGU), em parceria com a PF, os supostos
desvios praticados pela prefeitura de Coari geraram mais de R$7 milhões
em prejuízos aos cofres públicos entre 2001 e 2006, sendo R$3,1 milhões
em recursos federais e mais de R$3,8 milhões em receitas de royalties.
As
empresas que fazem a exploração de petróleo, gás natural ou xisto
betuminoso repassam o valor dos royalties à Secretaria do Tesouro
Nacional. O cálculo exato depende de fatores como riscos geológicos e
expectativas de produção. Cabe à Agência Nacional do Petróleo apurar o
valor devido aos beneficiários e garantir o pagamento. O montante –
dividido entre estados e municípios produtores (ou que abriguem
estrutura de transporte) e, eventualmente, a Marinha e o governo federal
– é então depositado em contas do Banco do Brasil. A legislação em
vigor proíbe sua utilização na amortização de dívidas ou na folha de
pagamentos. E, é claro, no uso dos recursos coletivos de forma
individual.
Os lucros advindos da implantação de grandes
empreendimentos de exploração mineral permanecem na mão de poucos,
enquanto o prejuízo social e ambiental decorrente da extração é dividido
por todos. E isso se reproduz em outros lugares, do Recôncavo Baiano,
ao Sertão nordestino e às cidades que se beneficiam da exploração
marítima, ricos em royalties do petróleo e derivados, mas com baixo
índice de desenvolvimento humano.
Há algum tempo, Eike Batista
afirma ter “descoberto” uma grande jazida de gás natural no Maranhão. Um
amigo de lá comemorou o fato, dizendo que isso poderia financiar o
desenvolvimento através de recursos pagos na forma de royalties, tirando
o Estado da pobreza. Eu tenho minhas dúvidas, para não dizer certezas.
O
Maranhão não é pobre. Parte de suas elites política e econômica é que
fez e faz com que as riquezas estejam na mão de poucos – a ponto de
ostentar um baixo Índice de Desenvolvimento Humano. O que garante que
novos recursos irão para a população?
Diante disso, é difícil
acreditar que todas as brigas no Congresso Nacional por fatias maiores
de royalties para os estados são por puro interesse público. Afinal de
contas, não é que dinheiro não traga felicidade. Dinheiro mal aplicado é
que gera tristeza.
Fonte: Blog do Sakamoto.
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