quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A festa do consumo

Por Marcus Eduardo de Oliveira

Uma das premissas mais básicas das ciências econômicas repousa no fato de que mais renda leva a mais consumo e, por consequência, mais consumo conduz a mais bem-estar. Bem-estar para os economistas, grosso modo, representa utilidade (uma medida de satisfação, em geral, usada nas decisões de consumo).

Por sua vez, utilidade mantém íntima e comum relação com a doutrina ética que atende pelo nome de Utilitarismo, ou seja, o bem se identificando com o útil. Pelas lentes da economia, essa doutrina (princípio ético), passa, primordialmente, por estabelecer se uma decisão ou ação é considerada correta a partir do benefício gerado à coletividade.

Quanto maior o benefício (satisfação), maior é o "grau” de utilitarismo, portanto, mais correta a decisão tomada. Tudo isso com um único e proposital objetivo: melhorar a qualidade de vida, ou aumentar o bem-estar dos membros da comunidade, finalidade maior da atividade econômica.

Segundo os representantes mais proeminentes da doutrina do Utilitarismo – Jeremy Benthan e J. Stuart Mill – toda a felicidade está, implicitamente, em obter o útil, afastando-se da dor e visando alcançar o máximo possível de prazer.

Como historicamente a economia sempre fez questão de pontuar que um dos caminhos mais fáceis para se alcançar o prazer (a satisfação) está no ato de consumir, toda a estruturação teórica das ciências econômicas foi então desenvolvida partindo-se do seguinte ponto: estimular à prática de consumo (preferencialmente em níveis exagerados) para com isso, mediante o acesso à renda, obter o máximo grau de satisfação (bem-estar, utilidade).
Assim, pela receita econômica tradicional, a felicidade de cada um que participa ativamente desse "nobre ato” de consumir estaria assegurada, visto que a felicidade aumenta com a renda, porém, só até determinado nível.

Acontece que a teoria econômica que alicerçou esse preceito "esqueceu” de nos contar que para a realização desse "ato sagrado” chamado consumo, faz-se necessário, antes, praticar outro ato não menos sagrado que serve em larga medida para idolatrar o deus mercado: produzir.

Portanto, na festa do consumo (que se dá, geralmente, em níveis exacerbados), o principal convidado é a produção (que tradicionalmente ocorre e corre às soltas, sem limites). Sem esse "convidado”, não há festa. Sem "festa”, não há culto ao deus mercado.

Para não correr o risco de não haver festas, a economia, sem respeitar os limites dados pela biosfera, se põe a patrocinar, via mercado, em escala mundial, as mais badaladas orgias festivas, sempre "embaladas” em muita destruição ambiental e no completo esgotamento material de recursos da natureza (biodiversidade, solo, oceanos, florestas, petróleo) – elementos sem os quais não há produção de absolutamente nada.

Razão pela qual a destruição do espaço-natureza ocorre em várias frentes dos chamados serviços ecossistêmicos. Consoante a isso, é oportuno destacar que o consumo –local e motivo da festa– é uma palavra que vem do latim "consumere” cujo significado é "destruir, gastar, esgotar”.

A palavra "suemere”, que se decompõe em "sumere”, permitindo então formar com o sufixo "con” a palavra "consumere”, significa "apoderar-se”. Ou seja, na verdade, o consumo é um "espelho” de uma produção que se apodera dos recursos naturais, destruindo-os em escala sempre crescente.

Com isso, percebe-se claramente, e não por acaso, que a destruição do ambiente natural decorre sistematicamente dessas "festas do consumo” que são, em primeiro plano, promovidas pelo mercado e propagandeadas largamente pela indústria da publicidade que torra, segundo estimativas, mais de 435 bilhões de dólares por ano.

Também não por acaso, a publicidade é o segundo maior orçamento mundial, perdendo apenas para os gastos bélicos. Só a título de comparação, apenas 15 bilhões de dólares (3,44% do que é gasto com publicidade) seriam suficientes para acabar com a fome no mundo que dizima, todos os anos, 10 milhões de inocentes crianças.

Nessa "festa da destruição” (do consumo, da abundância, do desperdício) é o meio ambiente (e o sistema vida) quem sofrem as mais sérias consequências, uma vez que a política econômica (a organizadora da festa) ignora os limites físicos do planeta, fazendo com que o consumo humano exceda a capacidade de produção e assimilação de dejetos da ecosfera.

Não à toa, apenas 20% da população mundial (que nunca perdem a festa) consomem 80% da produção global. E assim, os ritmos dançantes dessas festas parecem ser um só: se produz para se consumir e se consome para produzir, ainda que esse ritmo frenético não seja estendido a todos.

Por sinal, paradoxalmente, é essa desigualdade no consumo que "ainda” mantém o planeta em certo equilíbrio, visto ser impossível incorporar toda a população mundial aos padrões de consumo material praticado nos países avançados, simplesmente porque isso esbarra, sobremaneira, nos limites físicos da Terra.

Contudo, nossa espécie é a que causa o maior impacto ecológico no planeta: 40% de toda a biomassa produzida ao ano pelos sistemas ecológicos são literalmente "sugadas” para atender nossas necessidades.

O impacto do crescimento da economia para "satisfazer” essa sanha consumista (escamoteada no eufemismo das "necessidades”) é tão grande que, além dos recursos naturais, também as espécies animais são exterminadas em ritmo crescente.

Não por outra razão, entre 1970 e meados dos anos 2000, as espécies terrestres diminuíram 31%, as espécies de água doce, 28% e as espécies marinhas, 27%.

Os oceanos (o maior dos ecossistemas) estão em corrente processo de esgotamento. O Fundo de Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) já declarou que em 2048 não poderemos tirar de lá nenhum recurso alimentar significativo. Mais de 90% dos estoques de peixes predadores de grande dimensão, como o atum, peixe espada e o bacalhau já foram capturados. Entre os anos 1950 e o momento presente, a pesca total em águas abertas e abrigadas passou de 20 milhões para 95 milhões de toneladas métricas.

Nas últimas três décadas, o consumo mundial de bens cresceu numa média anual de 2,3%; em alguns países do leste asiático essa taxa supera o patamar de 6%.

De acordo com o Worldwatch Institute (Relatório "O Estado do Mundo”), em 2008 foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares. O consumo da humanidade em bens e serviços em 1960 atingiu o equivalente a US$ 4,9 trilhões (dólares de 2008); em 1996, chegou a US$ 23,9 trilhões e, dez anos depois, atingia mais de US$ 30 trilhões.

Na França, a média do consumo de proteínas é de 115 gramas/dia, ao passo que em Moçambique é de apenas 32 gramas. Cada cidadão dos Estados Unidos, na média, consome 120 quilos de carnes ao ano (10 quilos por mês), enquanto um angolano consome 24 quilos/ano, (2 quilos/mês). Os 315 milhões de estadunidenses (4,5 % da população mundial) comem 9 bilhões de aves todos os anos. Na Ásia inteira, com 3,5 bilhões de pessoas (50% da humanidade), consome-se 16 bilhões/ano. Há 150 carros para cada mil habitantes na China, enquanto nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) essa relação é de 750, e na Índia, apenas 35. Por essas e outras, parece-me que já passou da hora de colocarmos um fim nessa "festa do consumo”. Se há um desafio que nos persegue nesse desenrolar de século XXI, certamente é o de transitarmos para uma sociedade de padrões de consumo menos extravagantes e mais igualitários.

Fonte: Adital


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