quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Contadores de histórias de seis países reúnem-se em Niterói


da Agência Brasil

Com o objetivo de disseminar a tradição de contar histórias, formar plateias e incentivar a leitura, o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói, Rio de Janeiro, promove, até domingo (9), o 12º Simpósio Internacional de Contadores de História, que, este ano, passa a incorporar o nome Histórias sem Fronteiras.

Segundo a idealizadora do evento, criado em 2002, Benita Prieto, o simpósio promove mesas-redondas, oficinas e apresentações para o público, em geral, além de dar formação continuada a professores da rede municipal, além da troca de experiência para os contadores de história.

“O movimento [contação de histórias] hoje está bastante desenvolvido pelo Brasil – muitas coisas vem acontecendo, muitas redes estão se formando, está tudo correndo bem. A atividade está ligada a bibliotecas e universidades. Existem instituições, mas também coisas de governo, ações que se desenvolvem dentro das escolas, muita coisa acontecendo”, detalhou.

A  profissionalização do setor aumentou nas últimas décadas, diz a atriz e contadora de história Alicce Oliveira. “Contador de história sempre existiu, mas, nessa categoria profissional, o contador de história, o narrador de história profissional, que trabalha somente com a questão da mediação de leitura, com o incentivo à leitura, que participa de discussões, de políticas públicas voltadas ao incentivo à leitura, trabalha com a área de educação, e isso vem, a cada dia, dando força para a categoria.”

Ela destaca que professores, pais e mães e até mesmo crianças são contadores. A categoria da nova narração oral vem se firmando no Brasil de uns 20 anos para cá, principalmente na área da educação, ressaltou a atriz. “A contação de histórias vem se tornando um hábito dentro de sala de aula – é um recursos lúdico de motivação à leitura, uma forma diferenciada de trabalhar a leitura e o livro dentro de sala de aula.”
Além de brasileiros, participam do evento contadores de história da Argentina, da Colômbia, de Cuba, de Portugal e da Espanha.

De acordo com Benita Prieto, que também é curadora do simpósio, este ano a homenageada com o troféu Sinhá Olímpia foi a escritora, cantora, compositora e contadora de histórias Bia Bedran. Benita diz que compartilha com a homenageada o entendimento de que os contadores de história também são promotores da leitura.

O Histórias sem Fronteiras começou ontem (5), com o lançamento do livro digital Mínimos Contos, e-book que traz os 30 vencedores do concurso que propôs a criação de histórias de suspense com até 140 caracteres. Hoje, as oficinas vão até as 21h30. Amanhã (7), os debates começam às 9h30 e as oficinas serão à tarde e à noite.

No fim de semana, 40 grupos se revezarão na Maratona de Contos, com 24 horas de atividades ininterruptas, das 18h de sábado (8) às 18h de domingo (9). Na abertura, Bia Bedran apresentará  o espetáculo A Roda de Samba do Caraminguá e Outras Histórias Mais. Durante a madrugada, os contos são voltados para o público adulto. Toda a programação é gratuita e pode ser consultada no site do evento.


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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Conselho de Direitos Humanos avalia situação de comunidades tradicionais

da Agência Brasil

O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (CDDPH-SDH) discute hoje (5) o relatório da missão que, em outubro do ano passado, constatou a precariedade da situação dos quilombos da Lapinha e da Praia e das comunidades vazanteiras de Pau de Légua e Pau Preto, no norte de Minas Gerais. Os vazanteiros têm sua vida associada aos ciclos de enchentes, cheia e seca do Rio São Francisco.

A comissão, integrada por representantes da Defensoria Pública da União e do CDDPH, verificou denúncias de violação ao direito à alimentação adequada e à terra. Segundo o relatório, as comunidades visitadas estão com o direito de acesso ao território gravemente violado, “pois, desde os anos 60, vêm sendo expropriadas e encurraladas em pequenas áreas de seu território tradicional”.

De acordo com o documento, as comunidades tradicionais “começaram a ser encurraladas nas margens e ilhas do Rio São Francisco devido à expropriação pelas grandes fazendas de criação de gado”. Na década de 80, começou a ser implantado um grande projeto de irrigação na região, parceria dos governos federal e estadual, que desencadeou um novo processo de expulsão das famílias ribeirinhas.

Na década seguinte, diz o relatório, foram criados diversos parques estaduais e reservas biológicas em locais tradicionalmente ocupados pelas comunidades tradicionais, que estão sob pressão de serem realocadas. As famílias reivindicam rapidez no processo de demarcação e titulação das terras.

Segundo o defensor público federal Claudionor Leitão, violações ligadas à regularização fundiária são a questão central, já que as populações correm o risco de ser removidas da região. “Elas têm todo um modo de viver ligado ao rio. A insegurança alimentar se dá pela indefinição, pelo histórico de expropriação dessas comunidades, pela asfixia econômica que ocorre quando são confinadas a um trecho de território muito pequeno.”

Além disso, como estão em unidades de preservação, os moradores têm dificuldade de desmatar áreas para plantação e querem que sejam aprovados planos de manejo para uso sustentável da terra.
Entre as reivindicações das comunidades tradicionais, destacam-se a construção de escolas com professores voltados para a temática quilombola, a distribuição de cestas básicas e o acesso à água potável, ao saneamento básico e a moradias do Programa Minha Casa, Minha Vida.

José Antônio da Silva, da comunidade Pau Preto, explicou que as 64 famílias da área querem respostas para suas demandas. “Estamos encurralados pelos parques estaduais, que foram criados sem diálogo com as comunidades. Hoje querem retirar as comunidades do local. Nascemos ali e queremos viver ali. Não podemos plantar e não temos como sobreviver”, disse Silva.

O Quilombo da Lapinha tem 126 famílias, o Quilombo da Praia, cerca de 60 e a comunidade Pau de Légua, 70.

A reunião é integrada por representantes de órgãos federais e estaduais, como os ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Desenvolvimento Agrário e da Educação e o Instituto Estadual de Florestas.


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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As projeções sobre o futuro da água



As projeções sobre o futuro da água e suas implicações para a indústria.
 
Há uma crescente preocupação com a disponibilidade da água nas próximas décadas. A apreensão tem sentido, já que grande parcela da população mundial ainda vive sem acesso à água potável e ao saneamento básico, situação que tende a piorar com o aumento populacional esperado. Entre as soluções propostas está a da precificação dos recursos hídricos, o que poderia implicar em custos significativos para diversos setores da indústria. Mas será esta solução puramente econômica é a definitiva?

Água: um recurso cada vez mais escasso

As Nações Unidas definiram 2013 como o ano mundial da cooperação pela água. A preocupação com o tema não é de forma alguma infundada. De acordo com dados da própria ONU, pelo menos 780 milhões de pessoas vivem sem acesso à água potável, enquanto 2,5 bilhões não possuem saneamento básico adequado.

As projeções para o ano de 2050 também são alarmantes. Enquanto a população mundial vai saltar dos atuais 7 bilhões para 9 bilhões, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o aumento na utilização de água será da magnitude de 55%. Dessas pessoas, em torno de 40% viverão em regiões de severo estresse hídrico. Embora espera-se que um dos Objetivos do Milênio seja alcançado, reduzindo o número de pessoas sem acesso à água mais do que pela metade – de 780 milhões para 240 milhões, outro muito provavelmente não será. Em 2050, ainda serão 1,4 bilhão de pessoas sem saneamento básico.

Segundo informações da OCDE, as principais atividades responsáveis pela utilização dos recursos hídricos são a agricultura e a produção de alimentos (70%), seguidas pela indústria (20%), o que inclui a geração de energia. Os 10% restantes são gastos através do uso doméstico. O aumento populacional gerará uma pressão considerável na produção de alimentos e espera-se um crescimento de demanda na casa de 90% até 2050. A produção industrial não deve ficar muito atrás e só a geração de energia através da hidroeletricidade e outras fontes renováveis deve subir em torno de 60%.

A água doce é um dos ativos ambientais de valor inestimável para a vida humana e já a utilizamos em um nível superior ao que a natureza consegue repor. Apesar de nosso planeta ser, em grande parte, coberto por água, 97% desta está na forma de água salgada nos oceanos e apenas 2,5% é potável. Deste menor percentual, cerca de dois terços existem na forma de geleiras, o que nos deixa com menos de 1% de toda a água existente no globo disponível para consumo. Para piorar a situação, a maior parte dessa água potável se apresenta disponível em momentos inoportunos: monções e alagamentos. Além disso, 20% está localizada em locais muito remotos, longe do nosso alcance.

O resultado final é que apenas 0,2% dos recursos hídricos mundiais está efetivamente em uso, distribuído de modo bastante desigual, e um valor ainda menor, 0,13%, é renovável – precipitação em direção ao solo e posterior evaporação. A utilização a níveis atuais é insustentável e as previsões futuras, com aumento no consumo, tornam o cenário ainda mais preocupante. Para garantir a disponibilidade da água serão necessários mecanismos de controle e o desenvolvimento de tecnologias para aumento de eficiência.

A precificação da água no Brasil

Entre os mecanismos desenvolvidos para promover o uso eficiente dos recursos hídricos, talvez seja o da precificação aquele que ganhou maior popularidade. Muitos especialistas assumem que a determinação de um preço justo para a água é etapa necessária para garantir o consumo racional desse ativo ambiental. A ideia reside na teoria de que, havendo um preço, o usuário tem maior noção do valor do recurso e agirá de maneira mais prudente, aumentando sua eficiência e produtividade.

No Brasil, a água, de maneira geral, é tratada como bem público. De qualquer maneira, indústrias, agricultores, empresas de saneamento e qualquer pessoa que utilize a água proveniente de rios, lençóis freáticos e lagos precisa de uma outorga da Agência Nacional de Águas (ANA) para garantir o direito de uso. É através da gerência de outorga que, segundo a ANA, a agência realiza o controle qualitativo e quantitativo do uso da água.

Entretanto, já existem casos de cobranças pela utilização de recursos hídricos no país. De acordo com a Agência Nacional de Águas, o recolhimento está em vigor em alguns rios sob domínio da União e em rios, lagos e baías de responsabilidade estadual em Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e no Distrito Federal. O método utilizado é o volumétrico: o usuário paga de acordo com a quantidade utilizada, existindo um valor determinado em R$/m³.

Considerando uma universalização dessa cobrança em território nacional, o que parece ser uma tendência para os próximos anos, é possível a realização de alguns cálculos exploratórios para se determinar a magnitude do impacto dessa precificação no custo operacional e no valor de mercado de empresas de determinados setores:

Gráfico2 As projeções sobre o futuro da águaPara a elaboração das contas, foram consideradas como variáveis: o volume médio de água utilizado pelas empresas nos últimos anos; o preço da água, baseado nos valores já cobrados no país e de acordo com a região de atuação da companhia; as porcentagens de água captada e reutilizada; e o horizonte temporal para a cobrança efetiva pelo uso de recursos hídricos, variando conforme o nível de estresse hídrico do local onde as plantas industriais se encontram. Não foi levado em conta a possibilidade de contaminação de nascentes e seu impacto reputacional. O resultado final foi dividido pelo valor de mercado das empresas (número de ações x valor das ações).

Conforme pode-se observar pelo gráfico, o impacto da precificação da água no market cap das empresas dos setores de alimentos, bebidas, energia, mineração, papel e celulose e siderurgia do IBOVESPA, que são intensivos no uso do recurso, varia entre 0,1% e 5,3%.

As diferenças intrassetoriais se explicam, basicamente, por uma melhor gestão hídrica e investimento em tecnologias para a redução do consumo e reaproveitamento da água. O caso mais expressivo é na indústria de alimentos processados, onde a empresa menos impactada, nas condições atuais, poderia ter seu valor reduzido em 0,6% após a imposição de um valor para água, enquanto que a que sofreu abalo teve seu market cap reduzido em 5,3%.

O caso do setor de bebidas é atípico. Embora seja uma indústria que utilize consideravelmente os recursos hídricos, a empresa listada no IBOVESPA é bastante eficiente tanto no uso quanto no reuso desse ativo. E, principalmente, o seu valor de mercado é tão alto que minora a extensão do impacto da precificação.
De qualquer modo, o preço da água pode ter um custo significativo para as corporações desses e de outros setores, aumentando custos operacionais, reduzindo margens e, consequentemente, afetando o seu valor de mercado. A eficiência na utilização dos recursos hídricos e investimentos em pesquisa e desenvolvimento podem ser fatores de diferenciação consideráveis em um futuro próximo.

Precificação e mercado de água: solução inteligente ou saída mais fácil?

Como dito anteriormente, a determinação de um preço para a água se baseia no racional de que, ao se determinar um valor para esse recurso, ele seria utilizado com maior precaução, aumentando a eficiência no consumo, melhorando sua alocação e reduzindo seu uso. Contudo, ao se colocar o preço como único determinante da viabilidade de exploração de um ativo natural, todas as questões socioambientais são subjugadas pelas considerações econômicas. Dessa maneira, os valores estéticos, éticos e até mesmo, em alguns casos, espirituais dos rios, lagos e outras fontes são deixados de lado.

Em questões práticas de mercado, a criação do sistema de preços para a água e um subsequente mercado pode ter outros efeitos perniciosos. Nesse cenário, regiões abundantes em recursos hídricos e, por esse motivo, historicamente desenvolvidas, possuirão maior acesso à água a um preço mais baixo do que regiões de estresse hídrico, exatamente as que precisariam de água em valor mais baixo para se desenvolver. Ao mesmo tempo, empresas que acumularam maior capital financeiro e tecnológico, talvez até mesmo através da exploração abusiva de recursos naturais, possuirão enorme vantagem competitiva sobre companhias em desenvolvimento, seja na venda dos “créditos” para uso adicional de certos ativos quanto na obtenção desses ativos.

É muito improvável que lançando mão apenas de artifícios da mesma natureza daqueles que levaram à contínua depredação dos recursos naturais é que o problema do uso excessivo desses recursos seja resolvido. Faz-se necessária uma profunda revisão da questão do hiperconsumo e da ideia de desenvolvimento ilimitado, não condizente com um planeta de recursos finitos, o que envolve uma mudança de cultura e educação importantes. Além disso, é vital a criação de instrumentos que tragam considerações éticas, morais e estéticas para a determinação dos uso dos recursos naturais, incluindo a imposição de limites, definidos após extensa análise dos impactos em comunidades locais, fauna e flora.
A solução deve ir além dos simples incentivos econômicos que têm se provado, em sua maioria, insuficientes.

 Fred Seifert é economista pela UFRJ, consultor da SITAWI – Finanças do Bem desde agosto de 2011 e vencedor do Prêmio Itaú de Finanças Sustentáveis 2012 (fseifert@sitawi.net | www.sitawi.net).




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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Qual é o lugar do religioso no mundo?

Por Leonardo Boff

Por mais que a sociedade se mundanize e, de certa forma, se mostre materialista, não podemos negar que vigora uma volta vigorosa do religioso, do místico e do esotérico nos tempos atuais. Temos a impressão de que existe um cansaço pelo excesso de racionalização e de funcionalização de nossas sociedades complexas. A volta do religioso apenas revela que no ser humano há uma busca por algo maior. Há um lado invisível no visível que gostaríamos de surpreender. Quem sabe, não se encontre lá um sentido secreto que sacia nossa busca incansável por algo que não sabemos identificar?  Nesse horizonte não confessional, quiçá faça sentido se falar do religioso ou do espiritual. Ele sofreu todo tipo de ataques mas conseguiu sobreviver.

 A primeira modernidade o via como algo pré-moderno, um saber fantástico que deve dar lugar ao saber positivo e crítico (Comte). Em seguida foi lido como uma enfermidade: ópio, alienação e falsa consciência de quem ainda não se encontrou ou,  caso se encontrou, voltou a se perder (Marx). Depois, foi interpretado como a ilusão da mente neurótica que busca pacificar o desejo de proteção e tornar o mundo contraditório suportável (Freud). Mais adiante, foi interpretado como uma realidade que pelo processo de racionalização e de desencanto do mundo tende a desaparecer (Weber). Por fim, alguns o tinham como algo sem sentido, pois seus discursos não têm objeto verificável nem falsificável (Popper e Carnap).

Estimo que o grande equívoco destas várias interpretações reside no fato de colocarem o religioso num lugar equivocado: dentro da razão. As razões começam com a razão. A razão em si mesma não é um fato de razão. É uma incógnita. Já rezava a sabedoria dos Upanishad: “Aquilo pelo qual todo pensamento pensa não pode ser pensado”. Talvez nesse “não pensado” se encontre o berço do religioso, vale dizer, daquelas instâncias exorcizadas pela racionalidade moderna: a fantasia, o imaginário, aquele fundo de desejo do qual irrompem todos os sonhos e as utopias que povoam nossa mente, entusiasmam os corações, incendeiam o estopim das grandes transformações da história. Seu lugar reside naquilo que o filósofo Ernst Bloch chamava de princípio esperança.

É próprio destas instâncias — do utópico, da fantasia e do imaginário — não se adequarem ao dado racional concreto. Antes, contestam o dado, pois suspeitam que o dado é sempre feito; tanto o dado quanto o feito não são todo o real. O real é ainda maior. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é mas que pode vir a ser. Por isso, a utopia não se antagoniza com a realidade; revela a dimensão potencial e ideal desta realidade. Já dizia o sábio E. Durkheim na conclusão de sua famosa obra As formas elementares da vida religiosa: “A sociedade ideal não está fora da sociedade real; é parte dela”. E concluía: “Somente o ser humano tem a faculdade de conceber o ideal e de acrescentá-lo ao real”. Eu diria, de detectá-lo dentro do dado real, fazendo com que este real, no qual está o ideal, seja sempre maior que o dado à nossa mão.

É no interior desta experiência do potencial, do utópico, que irrompe o fato religioso. Por isso dizia Rubem Alves, quem melhor no Brasil estudou o “enigma da religião” (título de seu livro): “A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo que pode ser descrito e explicado pela ciência. A descrição científica, ao se manter rigorosamente nos limites da realidade instaurada,sacraliza a ordem estabelecida das coisas. A religião, ao contrário, é a voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo assim como ele é e que tem como seu projeto transcendê-lo”.

Por esta razão, o religioso é a organização mais  ancestral e sistemática da dimensão utópica, inerente ao ser humano. Como bem dizia Bloch: “Onde há religião, aí há esperança” de que nem tudo está perdido. Esta esperança é um amor por aquilo que ainda não é, “a convicção de realidades que não se veem”, como diz a Epístola aos Hebreus(11,1) mas que são o fundamento do que se espera.

Quem viu com lucidez esta singularidade do religioso foi o filósofo e matemático Ludwig Wittgenstein que disse: no ser humano não existe apenas a atitude racional e científica que sempre indaga como são as coisas e para tudo procura uma resposta. Existe também a capacidade de extasiar-se: “Extasiar-se não pode ser expresso por uma pergunta; por isso não existe também nenhuma resposta”. Existe o místico: “O místico não reside no como o mundo é, mas no fato de que o mundo exista”. A limitação da razão e do espírito científico reside no fato de que eles não têm nada sobre o que calar.

O religioso e o místico sempre terminam no nobre silêncio, pois não existe em nenhum dicionário a palavra que o possa definir. 

Até aqui falamos do religioso em sua natureza sadia. Mas ele pode ficar doente. Daí nasce a doença do fundamentalismo, do dogmatismo e da exclusividade da verdade. Mas toda doença remete à saúde. O religioso deve ser analisado a partir de sua saúde, e não de sua doença. Então, o religioso sadio nos torna mais sensíveis e humanos. Sua volta sadia é urgente hoje, pois ele nos ajuda a amar o invisível e tornar real aquilo que ainda não é mas pode ser.


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CONAE Publicado cronograma das conferências estaduais da Conae A etapa estadual será realizada em todas as unidades da Federação. As datas estão disponíveis na página da Conae 2024

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