quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Conservação e reuso de água, práticas que crescem na indústria


Dono de 12% das reservas de água doce do mundo, a questão da água não era um problema no Brasil até pouco tempo atrás, com exceção das regiões semiáridas. Não havia a preocupação em mapear o consumo de cada setor da economia. Também não existia o entendimento de que a água é um recurso finito, um bem econômico que precisa ser preservado para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos.

Nos últimos anos, os problemas de escassez devido à demanda crescente, associados ao custo da cobrança pelo uso das águas e à poluição dos mananciais, levaram ao desenvolvimento de métodos opcionais de gestão, como a adoção de sistemas conservacionistas e de reuso de água, práticas que vêm se disseminando na indústria. O processo permite efetuar a gestão da demanda, controlando perdas e desperdícios e reaproveitar efluentes domésticos e industriais, convenientemente tratados.

A fim de diminuir o impacto da cobrança nos custos de produção, que pode resultar em perda de competitividade, a indústria paulista tem feito grandes investimentos para reduzir a captação de água e a geração de efluentes.

A indústria química, por exemplo, conseguiu diminuir em 24% o consumo e em 55% a emissão de efluentes entre 2001 e 2007. Na Bacia do Paraíba do Sul, o reuso é praticado por cerca de 50% das grandes indústrias. Dos 32 milhões de metros cúbicos captados, 25%, ou pouco mais de 8 milhões de metros cúbicos, são reutilizados, principalmente pelo setor metalúrgico.

Para incentivar o setor industrial e outros usuários sujeitos à outorga a economizar água e reduzir a carga poluidora, a Agência Nacional de Águas (ANA) instituiu, em 1997, a cobrança pelo uso dos recursos hídricos, incluindo a captação de água e o lançamento de efluentes. Mas só nos últimos anos a lei foi implantada nos estados. Em São Paulo, onde a água de reuso equivale a aproximadamente 20% do consumo para fins não potáveis, a cobrança foi regulamentada em 2006. Ao dar uma dimensão econômica a esse recurso natural, que tende a ficar mais caro com a demanda crescente, o órgão regulador estimulou o uso racional e sustentável, inibindo o desperdício.

Além do fator econômico, as indústrias estão cada vez mais preocupadas em desenvolver novos conceitos ambientais tais como “eco-vantagem” e “eco-imagem”, cientes de que possam gerar retorno superior aos proporcionados por ações de propaganda e marketing. Diversas entidades de classe, como Fiesp, Fierj e Sinduscon-SP produziram manuais com orientação sobre conservação e reuso da água com o apoio do Centro Internacional de Referência em Reuso em Água – CIRRA/IRCWR, ligado ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor) estimulou a discussão sobre o tema durante a Acquasur 2000, evento que apresentou temas sobre viabilidade socioeconômica e ambiental do reuso da água. A gestão ambiental na indústria se constituía em tema que atraia pouco interesse da maioria dos empresários nacionais, o que mudou substancialmente nos últimos anos.

O aproveitamento de águas pluviais e o reuso reduzem a demanda exercida sobre os mananciais devido à substituição da água potável fornecida por concessionárias por água coletada nas próprias empresas e pelo tratamento e reuso de seus próprios efluentes. Muitas vezes, a qualidade das águas do sistema público é superior à qualidade necessária, com possibilidade de ser substituída por uma de qualidade inferior a um custo menor.

A água poluída pode ser recuperada e reusada para diversos fins desde que tratada. O tipo de tratamento recomendado está diretamente vinculado ao uso e aos critérios de segurança adotados. Geralmente, a água de reuso passa por um tratamento biológico, físico-químico e desinfecção com cloro ou outro desinfetante tais como dióxido de cloro, ozona ou radiação ultravioleta. Nos reservatórios, é conveniente manter a presença de cloro residual na água. Além disso, em se tratando de água de chuva, é necessário fazer a filtração e desinfecção com cloro ou outro desinfetante tais como dióxido de cloro, ozona ou radiação ultravioleta. Usos que demandam água com qualidade elevada exigem sistemas de tratamento e de controle avançados. Entretanto, mesmo que sejam efetuados grandes investimentos em sistemas de tratamento e reuso, os períodos de retorno do capital são geralmente reduzidos, mantendo-se, normalmente, em menos de três anos.

Embora ainda incipiente no país, o reuso urbano é indicado para a rega de jardins, campos de futebol e golfe, lavagem de ruas, desentupimento de galerias de esgoto, compactação de terrenos, descarga sanitária em banheiros, água de “make up” em torres de resfriamento de sistemas de ar condicionado, reserva de incêndio e sistemas decorativos. Na construção civil, a água de reuso pode ser utilizada para preparação e cura de concreto e para atingir a umidade ótima em trabalhos de compactação de solos. Na agricultura, um dos setores que mais consomem água, o reuso também apresenta um grande potencial de crescimento, mas no Brasil, está, ainda, muito pouco desenvolvido. Para fins agrícolas, o uso do esgoto tratado para irrigação gera economia para os agricultores, pois carrega matéria orgânica, nutrientes e macro nutrientes, dispensando, na maioria dos casos, a necessidade da utilização de fertilizantes sintéticos. Esgotos tratados têm sido, atualmente, utilizados para fins não potáveis, mas a prática mundial se encaminha, em futuro próximo, para fins potáveis, após o tratamento avançado de esgotos. Mas, qualquer que seja a forma de reuso empregada, é fundamental atentar para a preservação da saúde dos usuários, a preservação do meio ambiente, o atendimento consistente às exigências de qualidade conforme o uso pretendido e à proteção dos materiais e equipamentos utilizados.

Apesar dos avanços mais recentes, a prática de reaproveitamento da água no país ainda carece de uma legislação específica e realística, que oriente e defina os tipos de reuso, padrões e controle de qualidade, a fim de garantir a qualidade necessária para cada uso específico. É preciso, portanto, vontade política e um arcabouço legal para promover e estimular o reuso no país como instrumento de gestão dos recursos hídricos. É importante ainda que o governo ofereça algum tipo de subsídio às empresas que adotem a prática de reuso de água.

 Ivanildo Hespanhol é professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água – Cirra/IRCWD, Universidade de São Paulo.

Fonte: Envolverde


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